31.5.10

Cavalos indomáveis

"Falta imaginação à maioria das pessoas supostamente valentes. É como se não pudessem conceber o que aconteceria se alguma coisa saísse mal. Os verdadeiros valentes vencem a sua imaginação e fazem o que devem fazer."
BUKOWSKY, Charles

Cruzava o universo e vinha de uma terra distante, onde talvez se fizessem os arco-íris. Ela se enxergava como um trapo, onde todos já haviam pisado mas poucos percebiam aqueles belos detalhes floridos, esculpidos em sua superfície e decretados em seu interior. Foi feita durante a belle époque, por mãos artesanais, não há dúvidas.

Seus olhos eram palcos teatrais onde neles se refletiam peças jamais vistas, aplaudidas pelo silêncio e embaladas num suspiro profundo. Eram peças projetadas apenas para aqueles olhos intrigantes e labirínticos. Defendia cada protagonista como o último guerreiro, já ensanguentado de batalhas outrora árduas, mas nunca o desvencilhava.

Ensinava, a cada passo, a magia de acreditar em cada devaneio insano. Eram sonhos os devaneios e eram inspiradoras as insanidades. Quando se tem julgamento, portanto errôneo, há falta de sensibilidade.

Da sua voz, melodia, tecida por tal suavidade que a fazia parte de uma órbita não presente nos mais fervorosos livros de física. Talvez fosse esse o seu charme: não era catalogada. Não sei, pra falar a verdade.

30.5.10

A queda de um gigante

"Cuide de vossa graça, pois aqueles ali não são gigantes, mas moinhos de vento, e aquilo que pensais serem braços são as pás que, girando o vento, movem a mó."
DE CERVANTES, Miguel

Era muros, tijolos, concreto puro e intransponível. Dizia que nada o assustava, nada o fazia hesitar. "Problemas?!" - afirmava - "só falta de preparo, não há nada que possa te fazer sair do controle".

Lutava intensamente contra o tempo, traiçoeiro e perturbador no seu "tiquetaquear" incessante. Mas lutava só para não ser tachado como fracasso ambulante, carregador de cruzes. Era orgulhoso, e como era. Não fugia de lutas, de socos, de dores, pelo contrário, contava cada cicatriz do corpo e esperava ouvir delas alguma história que pudesse se vangloriar, erguer o peito e então seguir em frente, com a sensação de dever cumprido.

Negava ser clichê. "Basta enxergar de outra maneira".

Porém houve a derrota, daquelas de dentro para fora. Enganado pelos próprios sentimentos, gritava motim. Sua cabeça já não aguentava processar tanta vergonha. Era a queda de um gigante, impávido colosso.

Sempre tentava fugir dessa falha, mais uma falha. Ajoelhou-se frente aos seus regimentos, e permitiu ser careta, metafórico, lembrar dela através de uma canção. Era avassalador. Sentiu-se sem o poder necessário para reverter a situação, pois havia sido construído às escuras de seu coração, a maior fogueira do mundo, e ele que achava que só água ou vento resolveriam, ficou sem opções. Permitiu, novamente, ser careta, metafórico, lembrar dela através de uma canção.

Paixão é uma coisa que acontece.

24.5.10

As sombras estáticas

“Quando começares tua viagem a Ítaca pede que o caminho seja largo, cheio de aventuras, cheio de experiências. (...) Mas não apresses nunca a viagem. Melhor que dure muitos anos”
CAVAFIS, Constantino


Enquanto a maioria de seus companheiros de luta gastavam seu dinheiro em novas e potenciais maneiras de estragar o fígado, ele decidia escrever num bloco de notas enquanto olhava para si.

Os 'paraísos artificiais' que o rondava eram diferentes daquele que imaginava. Um paraíso que flertava com o contato e a reflexão. Não decidiu fazer parte do romantismo, simplesmente era. Na verdade, achava que era o único remanescente dessa trupe que havia sido dizimada por um bando de frustrados. Culpava o pós-modernismo, mas não sabia se esse fardo seria justo para apenas uma palavra.

Vivia numa época de pensamentos fracos. De sombras estáticas. Esperava pelo dia em que todos parassem de pensar, e então a vida interior seria vazia, expressada em despretensiosos atos desiludidos. Uma era em que não haveria mais um homem capaz de vibrar, numa pulsação que contagiasse, que inspirasse, que transpirasse.

Tinha medo. Receio. Só não havia enlouquecido pois, num outro espaço, havia o brilho de alguma-coisa que confirmava sua hipótese esperançosa, a de que o que falava podia ser verdade. E enquanto esse brilho demandasse de seu calor para sobreviver, ele não enlouqueceria.

Enquanto todos os outros normais o desmotivavam, ele sabia que dificuldade é uma série de coisas opcionais, longe é um lugar que não existe e havendo vontade em suas mãos, estaria são. E salvo.

10.5.10

A releitura da roda

'O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer: de modo que nada novo há debaixo do sol'
Eclesiastes 1:9


Tudo o que ele via era repetição, inutilidade e falta de significado para a vida. Comparava-se à Salomão que, no capítulo de abertura de Eclesiastes, encarou a ordem cíclica das coisas e encontrou razão para o desespero: buscava sabedoria e notou que era deprimente. Considerou a vida efêmera.

Mas entendia que a vida deveria ir além dos ciclos, além das repetições. Não há novo debaixo do Sol, sim, mas não era necessário que houvesse, pois afirmava que o grande salto da inércia ao movimento se dava quando tudo isso que nos é pertinente passa a ser visto num diferente ponto de vista, que também não é novo, mas não é maioria.

Certa vez, Ludwig Wittgenstein disse: "O mundo daquele que é feliz é diferente do mundo do homem infeliz." E aqui vai uma notícia ruim, ambos viviam no mesmo mundo físico. Riu para si próprio. Encontrou a autenticidade das coisas, inclusive a sua, na releitura que fazia daquilo que lhe era proposto.

Volta e meia encontrava pessoas que lhe fazia sorrir com tão pouco, que o fazia em puro ódio, puro carinho, tristeza...
E então perguntava-se como elas conseguem isso quando na verdade deveria se preocupar em mantê-las próximas, em amá-las, se necessário, pois se não encontrava um bom motivo para isso, pelo menos fugia de ver o mesmo quadro passar à sua fronte e de nada isso lhe acrescentar algo.

Abriu seu amarelado livro de anotações, leu outra frase, Pierce: 'não há nada novo sob o sol, mas há muitas coisas velhas que não conhecemos'. Riu para si próprio.

24.4.10

A lista de coisas que não deveria existir

"Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio."
SHAKESPEARE, William.

E o contínuo hábito falho de listar tudo o que vemos.

Colocamos tudo num espaçamento, às vezes mental, entrelinhas, só para não entrarmos no jogo da memória. "Bonita", "Inteligente", "Adorável", "Cheirosa" e então construímos muros, pífeos muros de obsolescência programada.

Eu sei que estas paredes irão ruir a qualquer momento.

"Mas por quê?", perguntou-me um amigo, ansioso por tópicos pontuados pularem da minha boca; coitado, pois se decepcionou em seguida com a minha frase única. Não basta apenas a vontade?

Não se questiona o motivo de um poeta ao versar. E versamos em ações, nós, quando dedicamos o precioso tempo por algo que valha a pena. Logo, somos todos poetas, e não se questionam seus motivos.

18.4.10

Everything you know is wrong

Acreditava nos sentimentos. Acreditava que um dia poderia mudar o modo como as pessoas agiam. Não estava interessado em fazer isso pelo bem do mundo, pelas mortes na África, pela cura do câncer. Não estava interessado no presidente, no papa, no ladrão. Queria o sorriso daqueles que adorava. Não era hipócrita. Não, não era. Ele só acreditava.

Foi forçado a entender que tudo que sabia era errado. Foi forçado a desacreditar em uma coisa especial que tanto cultivava dentro de si. Às vezes assistia cenas violentas só para se dar conta que seu lugar era entre pessoas que sangravam, mas nada era comparado à tamanha dor que se apossou de seu corpo quando, atônito, viu tudo aquilo que lutou para construir se desfazer em pó e do pó em nada.

Ria. Como pode ser estúpido a tal ponto?! Acreditar nisso?! Sentia era dó de si mesmo. Por um momento viu o que era o amor, alcançou glória divina. Sonhava em ser Dante.

Agora não precisa mais de cenas violentas. Olha nos olhos de quem passa ao seu lado, daqueles sentados no ônibus àqueles sentados em tronos, e reflete como tudo poderia ser diferente se agíssemos em verdades, não em mentiras. Mas então aceitou isso e continuou vivendo (talvez pela obrigatoriedade), não podia esperar algo que inexiste nessa dimensão.

Ainda acredita no amor, mas acha mais fácil fazer o bem ao mundo e curar pessoas.

17.4.10

Desperdícios

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."
ANDRADE, Carlos Drummond de


Esquecemos do tempo que passa, aflito. Ele não olha pra trás, não precisa. Nós sempre olhamos, não deveríamos.

Quando temos as chances escassas, poucas mesmo acontecendo em frequência, as desperdiçamos, mas não sabe o quanto isso é caro.

Ele tenta explicar o valioso, mas não existe solidez nas palavras. Está fadado ao vento produzido pelo tempo.

Ela reclama do tempo em vão, quando deveria se orgulhar do tempo em mãos.

Ele sabe que só o ouvirão quando puderem tocar, mas prova da mesma ironia que usa: ele é o manipulado e o tempo seu manipulador.

Os dois nunca saberão quais frases e palavras ficaram perdidas no espaço que esvanesceu. Quais momentos únicos poderiam recordar. Quais sorrisos, risadas, cheiros, carinhos, sons. Tudo agora não passa de uma massa sólida e aterrorizante.

Sinto que este pobre coitado sonha muito em viver. E isso continua a custar, e como.